quinta-feira, 31 de maio de 2007

A luz azul.


"Olha, Maira, olha para cima. Está vendo? Hoje é a lua azul!", me disse Amaralina no intervalo que dei para respirar do jongo que dançava na Lapa, e continuou "Então presta atenção: você vai procurar alguém e à meia-noite precisa olhar nos olhos desta pessoa e beijá-la, depois disso olhe para a lua que assim ficarás para sempre com essa pessoa!". Ai, Amaralina, que pesado, vai que eu beijo um cara nada-a-ver? Quero ficar pra sempre com ninguém não, disse. "Ai, mongol, 'o pra sempre sempre acaba' ".
Beleza, então. Vou dançar meu jongo e ir procurando olhos, olhos bonitos, interessantes, com boas energias... claro, se afinal terei de viver um "sempre" com a pessoa, tem que no mínimo possuir tais qualidades. Ai, olhei no olho dele mas não é nada disso. Merda... Vamos ver se outro olha. Ih, esse, deus é mais! Ai, esse também não.
Inventei de procurar mais pra longe os olhos pros quais olharia e depois concederia à lua a realização do desejo. Alguém quer ir comigo rodar pela Lapa? Não? Ninguém? Então vou só, pois como disse Amaralina, a lua azul só aparece 2 vezes por ano.
Não. Você não!
Sim, sou seletiva sim, e acho que foi por isso que perdi o momento de aproveitar a presença da lua azul.
Vai ter que ficar para a próxima.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

À friaca.


Cofraternizemos o bom vinho tinto.
E uma pergunta: por que o acasalamento é algo tão complexo?

terça-feira, 29 de maio de 2007

Conversa de msn entre pai e filha

Joana diz:
paiêee

Chico Pinto diz:
oi fia. separei o livro pra você ler sobre Rashomon.

Joana diz:
eu nao leio nada, papai. eu sou uma especialista em orelhas de livro, esqueceu? estou tentando escrever aquele seu argumento.

Chico Pinto diz:
qual?

Joana diz:
“a ultima canção”

Chico Pinto diz:
hummmmmmm, adoro essa idéia.

Joana diz:
pensei numa coisa. é um cara, um meio fã que mata ela, certo?

Chico Pinto diz:
acho que na idéia original, era um amor do passado que aparecia naquela noite e pedia uma música que foi deles.

Joana diz:
que massa! que nem casablanca!

Chico Pinto diz:
que nem todos os casais do mundo.

Joana diz:
e ele pode matá-la porque ela nao se lembra de alguma coisa?

Chico Pinto diz:
não, ele a mata por algum motivo bem mais grave. algo relacionado com o fim da relação, uma traição... anos e anos curtindo o ódio e o ressentimento.

Joana diz:
oxe, mas eles têm relação? ele não é amor do passado?

Chico Pinto diz:
eles tiveram... então, minha filha! calma. um homem entra num bar e assiste a um show de uma cantora. ele pede uma música, a última que ela canta. ela é encontrada morta num beco próximo. a polícia descobre na mão dela um bilhete com o pedido da música, a última canção

Joana diz:
e porque afinal ele mata ela??

Chico Pinto diz:
ele a estava procurando. eles tiveram uma relação no passado, interompida por uma fuga dela, uma traição.

Joana diz:
e isso lá é motivo pra se matar numa noite, depois de pedir uma canção!?

Chico Pinto diz:
tem o contexto, isso aqui é só um pobre resumo de um pobre roteirista mamão.

Joana diz:
pô meu paiii

Chico Pinto diz:
calma... é um bom começo. e uma traição é sempre um bom motivo pra matar.

Joana diz:
hahahahahahahahahahahahahahah

Chico Pinto diz:
pergunte a quem foi traído.

Joana diz:
pra mim uma traição é pouco, pra esse caso.

Chico Pinto diz:
né não, filha. eu posso pintar pra vc essa história com tintas fortes, cores quentes

Joana diz:
então pinte! pra mim ela deve ser uma mulher que nao quer compromisso com ninguem, e a obssessão dele por tê-la é o que o faz matá-la!

Chico Pinto diz:
nãoooooooooooooooooooooooooooooo

Joana diz:
ahh! ou voce me diz como é ou vai ser assim! hahahahahaha

Chico Pinto diz:
rsrsrssrs...... o "não" foi pra idéia do compromisso. eu prefiro uma tragédia clássica.

Joana diz:
então conte mais, como é que ele chega ao bar?

Chico Pinto diz:
ele passa anos investigando, ela rodou bastante. ela perdeu o amor por quem trocou ele.

Joana diz:
hummmmmmmmmmm

Chico Pinto diz:
ficou amarga, deixou de ser uma cantora de sucesso promissor pra cantar em lugares de quinta, mas ele nunca esqueceu. de certa forma, ela já esperava que ele um dia chegasse. quando o bilhete chegou até ela, ela sabia q era ele

Joana diz:
ela finge que nao entende e apenas canta?

Chico Pinto diz:
era uma música que tinha saído faz tempo do repertório dela. ela se entrega à morte. sabia que o dia dela chegara.

Joana diz:
cantar a música é entregar-se à morte!

Chico Pinto diz:
mais ou menos.

Joana diz:
uhuuuu, bala

Chico Pinto diz:
tá melhorando?

Joana diz:
tá indo bem!

Chico Pinto diz:
humm, e quem narra a história?? arráaaa... vc tem que ler o roteiro de Rashomon...

Joana diz:
bom, mas acho que esse assassinato tá muito morninho. muito morninho alguem cantar e saber que vai morrer

Chico Pinto diz:
não meu bem, não tá morno.

Joana diz:
muito morno sim.

Chico Pinto diz:
no.

Joana diz:
tá sim, ele vai, arrasta ela prum beco, e pá, mata?

Chico Pinto diz:
vc não está conseguindo enxergar como a história deve ser contada.

Joana diz:
então não estou mesmo.

Chico Pinto diz:
a morte no beco é o q menos importa. pense na história. pense no ponto de vista. podemos interferir colocando um personagem que vai desvendar a trama, talvez um irmão dela, uma irmã... alguém que chega avisado da morte dela, que descobre coisas no quarto dela.

Joana diz:
a irmã ou a policia?

Chico Pinto diz:
a irmã, é melhor.

Joana diz:
alguém como uma irmã pode entender o que significa aquele bilhete, certo?

Chico Pinto diz:
o bilhete só tem o nome da música.

Joana diz:
sim, e a irmã nao pode conhecer a historia dos dois com essa musica?

Chico Pinto diz:
não, ninguém conhece. outros elementos achados no quarto ampliam a visão da polícia.

Joana diz:
afe!!!!!!!!!

Chico Pinto diz:
minha filha, cinema não é ciência exata. tem que deixar a imaginação viajar. tem q colocar tensão na trama.

Joana diz:
eu sei, meu pai... acho que eu sou anta! nada disso esta se configurando na minha cabeça.

Chico Pinto diz:
bobagem. vc é uma menina q está começando a pensar nessa coisa, roteiro é técnica
e imaginação, e nada se resolve numa conversa de 5 minutos pelo msn, ok?

Joana diz:
uii! pode resoolver sim, viu.

Chico Pinto diz:
não, tem é muita ralação. roteiros são escritos em meses, as vezes anos... calma moça!

Joana diz:
vamos fazer uma oficina de roteiro igual em "me alugo para sonhar"

Chico Pinto diz:
e quem vai ser o professor?

Joana diz:
nao precisa, ne? voce lembra como foi feito esse? garcia marquez não deu o argumento todo com detalhes e podava as sugestões a seu juízo.

Chico Pinto diz:
mas tem q ter um mediador

Joana diz:
você!

Chico Pinto diz:
eu não, tem gente de cinema na Bahia que pode fazer isso

Joana diz:
acha que alguem ia querer?

Chico Pinto diz:
vc precisa ler pelo menos um manual de técnica de roteiro. eu tenho roteiros de filmes famosos tb, tem q ler... leia o argumento de Rashomon. tá aqui separado pra vc, poucas páginas.

Joana diz:
engraçadas as suas técnicas de sedução para capturar os filhos na leitura, sabia? as coisas que voce fala...

Chico Pinto diz:
rssrsrsrsrssrsrsrssrsrsrssrsrs

Joana diz:
o terrorismo que voce faz...

Chico Pinto diz:
a paixão que desperto? foi isso q entendi?

Joana diz:
você dizendo "minha filha, voce nunca leu fausto de goethe??? gente, estou preocupado com Joana."

Chico Pinto diz:
passar pela vida e ter podido teclar com voce pelo msn sobre um argumento pra um filme, já terá valido a pena por pelo menos algumas dúzias de eternidades

Joana diz:
algumas CALPASSSSSS*

Chico Pinto diz:
isso. e vc me preocupa mesmo, e sempre será assim. sua boba, vá pensar na idéia.

Joana diz:
ja to escrevendo uns negocios

Chico Pinto diz:
vou "forçar a barra" pra vc ler pelo menos uns três livros de cinema.

Joana diz:
certo

Chico Pinto diz:
filha, vou sair. bjs e não demore pra dormir

Joana diz:
ixe, ja tá é tarde. um beijo papai! boa noite, bons sonhos

Chico Pinto diz:
bjs

Joana diz:
(L)(L)(L)




***CALPA é uma medida de tempo que Borges explica em um dos capítulos da conferência das Sete Noites, mas não sei exatamente em qual. Pelo que me lembro, é mais ou menos assim:
Imagine que um anjo, com a mão mais leve do universo, pegue um lenço, da seda mais pura que existe e passe delicadamente e apenas uma vez em um dos lados de um imenso muro de ferro. Ele faz isso a cada 600 anos e, repito, apenas uma vez. Uma calpa é o período de tempo que demora para este muro GASTAR TOTALMENTE.
Ainda há uma outra explicação, mais prejudicada na minha lembrança, onde Borges diz que uma calpa corresponde a um lago, onde há uma argola boiando, sempre, e onde mora, no fundo, uma grande tartaruga. Ela precisa subir à tona para respirar apenas uma vez a cada 600 anos. A argola mede exatamente o diâmetro da cabeça da tartaruga e o lago é imenso, portanto, é remota a possibilidade da tartaruga acertar a argola em cheio. Uma calpa, nesse caso, corresponde a certa centena de vezes em que o pescoço da tartaruga atravesse essa argola.
Legal, ne?

Rolar, deixar rolar.


pensou em desistir
desacreditar
deixar passar ...

força, acima de tudo
segura firme
vamos lá!

depois esqueceu
deixou rolar,
acabou por se entregar!

Juca Peru.


Queria contar uma historinha da minha casa, de onde agora sinto falta e acredito ser saudável lembrá-la...
Numa rua onde o asfalto nunca havia pisado, onde a chuva encontrava um berço comprido para ninar, existia uma casa, de número 563-E, com duas castanheiras em frente, dispostas de forma simétrica com o portão, proposital ou não, vai saber.
Essa casa era muito pequena antes de uma família decidir lá morar. Saindo de um bairro "bem localizado" na cidade de Salva-a-dor* , Imbuí , a família resolve mudar-se para um ambiente arejado, distante, onde pudesse se acomodar à moda antiga, dos campos. Onde fosse possível mostrar à nova geração um pouco do que se viveu há tantos anos atrás e saciar o desejo dos pequenos de possuir animais de estimação.
Lá se foram, para a rua Mucambo, estrada de barro, clima de interior, sítio enorme e barato, para seu tamanho. Vizinhos que pareciam estar por ali pelo mesmo propósito, um ideal um tanto "alternativo", sim, o tempo de convivência explica as aspas.
A casa estava em decadência. A família resolveu então reformá-la. Com um ideal de assumir totalmente o caráter interiorano, resolveram contratar trabalhadores da própria região, para fazer o capital circular por aquele meio. E sabe como é, foram meses árduos de trabalho. Pilastras construídas apenas com 10% do cimento comprado- o resto está, provavelmente, sustentando a laje do sujeito- e retardando, assim, o processo de evolução da construção... Mas finalmente ficou "pronta" -mais uma vez, a experiência e convivência explicam as aspas.
A família feliz muda-se! O fiat Uno prata fica estacionado no quintal verde com sementes já afundadas preparando-se para colorir o novo lar.
Passado anos a casa já tinha galinheiro, cachorros, muitos passarinhos, minhocas, de quando em vez cobras, aranhas, gatos-do-mato, etc.
Até que foi decidido adotar-se também um peru e uma perua. Ah, já existia um casal de gansos, que merecem destaque rápido. Brancos e felizes. Fazem tudo juntos, o homem defendendo e protegendo sua mulher em toda e qualquer situação. Banho? Tomam juntinhos, cada qual com sua privacidade individual, se respeitando e amando. Um luxo ter em casa tal exemplo amoroso.
Voltando ao casal de perus. Pois foram comprados. Juca Peru é o nome do homem, e a perua, coitada, virou Perua mesmo.
O Juca Peru sempre foi atacado. Não sei se todos perus são assim, haveria de ter tido outras experiências. Mas Juca Peru tinha um "quê" de afetado - bom, não sei qual a palavra mais adequada pro momento.
Qualquer um que saísse ao quintal e desse de encontro com Juca, era fuga na certa, ou então luta, sim, ele pulava com as duas patas para cima da barriga do que mexesse com ele. "Escarrêrava mermo".
Alemão, que trabalha na casa até hoje, conhecia-o bem e já dizia que ele "gostava de brincar". Nunca vi muita brincadeira com aquelas unhas e bico, mas... cada louco com sua mania.
Um dia o peru revoltou-se. (Não disse que achava ele estranho? Sempre achei...).
Numa bela manhã, quando Alemão chegou e foi colocar milho para as galinhas... Um alvoroço no galinheiro.
Uma galinha morta! O galo puto da vida e o ganso junto com ele na briga contra o peru.
Sim! O Juca Peru matara a galinha! Quebrara suas pernas e estuprara-a!
Sempre achamos que galinhas são bichos burros. Eu mesmo achava, na verdade até hoje me pego xingando-as. Parecem muito descoordenadas. Odiava ter que entrar no galinheiro para pôr comida para elas, era sempre uma bagunça só, não conseguia observar nenhum tipo de organização que tinham e me questionava sempre como conseguiam viver em grupo sem nenhuma ordem. Mas chegou o dia em que se explicou a ordem do galinheiro. O peru, depois do assassinato cometido, do crime cometido, foi expulso do galinheiro! Ele não poderia ficar mais um minuto lá dentro senão seria esfolado!
Tivemos que construir um anexo ao galinheiro só para o peru e sua mulher.
Ahá! Mas aí estava o problema.
"Um peru precisa de um harém de peruas, não sabia?" disse alguém rindo para minha mãe quando ouvira a história. Ah, aí estava o problema. Os danados são poligâmicos!
Hoje Juca Peru deve ter falecido, depois de conviver em paz com duas peruas, seu galinheiro próprio e suas brincadeiras cotidianas com Alemão. Sumiu. Acreditam que o tenham roubado para comer.
Aí está um pouco da casa onde vivi durante boa parte de minha vida. Que daqui a uns anos serão, numericamente, poucos anos, mas agora, e sempre, terão signifativa importância.

*Por Camila inspirado.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Meu guia.

Ontem, depois daquelas conversas "efeito-pós-terapia" que temos com os melhores amigos, para quem resolvemos contar os mais podres de nós mesmos, fiquei com a pulga atrás da orelha.
Acredito que para todos seja difícil reconhecer dentro de si comportamentos influenciados pelos valores externos, que a sociedade nos impõe. Reconhecê-los já é um grande passo, mas depois, depois de reconhecer que de fato, muitas vezes, nos comportamos tomando decisões pouco próprias, mais influenciada pelo meio que pela nossa vontade, depois de saber disso, que devemos fazer?
Ouvi ontem o que estava precisando há algum tempo, já.
Muitas vezes precisamos ouvir para nos conscientizar de algo que já existia em nós - só como desconfiança, não como fato. Depois de uma opinião outra conseguimos refletir e admitir a veracidade do caso.

A questão que tem me complicado emocionalmente é a graduação, o vestibular, o ensino superior.
Tenho assumido uma postura de quem está decididamente preparada para o tranco e enconrajada a investir neste objetivo. Mas muitas vezes sei que lá no fundo, fundo de alguma coisa, de mim, do inconsciente, consciente, massa cefálica, sei lá, sei que é fundo, sinto a existência de outro desejo que não estimulo.
Será que seria o caso de me dedicar a outros prazeres ?
A faculdade é sim importante, a experiência e o currículo também o são, eu sei. Mas será agora a hora?
Ai, crises...
Que meu Oxóssi do campo me ajude.